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Centro Juvenil de S. José organiza II Seminário “Família em Foco”

A 2ª edição do Seminário Família em Foco terá lugar nos próximos dias 30 de setembro e 1 de outubro no pequeno auditório do Centro Cultural Vila Flor.

Esta é uma iniciativa organizada pelo Centro Juvenil de S. José e visa a apresentação e discussão de boas práticas nas áreas da primeira infância, crianças e jovens em perigo e famílias multidesafiadas.

O bem-estar das crianças, jovens e suas famílias é uma prioridade, pelo que é importante percebermos quais as ferramentas necessárias para auxiliar este processo.

Este seminário pretende ser um espaço de reflexão, atualização e partilha de boas práticas entre os profissionais e oradores ligados à investigação e intervenção nestes domínios.

A participação está aberta a todos e os bilhetes, que tanto podem ser adquiridos para o formato presencial como à distância, já se encontram à venda no site seminario.cjsj.pt

Caso opte pela inscrição online e não consiga assistir ao evento em direto, terá acesso à gravação através de uma área reservada para o efeito (disponível para visualização nos dias 2 e 3 de outubro).

Conheça o programa.

Garanta já a sua inscrição!

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“Pais & Filhos”

O Centro Juvenil de S. José estabeleceu uma nova parceria com o Diário do Minho, com a rubrica intitulada “Pais & Filhos”.

De forma prática e simples, desejamos:
Ajudar as famílias nas suas rotinas e desafios diários!
Sensibilizar para uma educação positiva!
E ainda, divulgar iniciativas!

Pode ler os nossos artigos no Jornal Diário do Minho, bem como nas plataformas digitais (Diário do Minho, Redes Sociais, e Site Institucional), semanalmente, às quintas-feiras!

Artigo da semana: https://diariodominho.sapo.pt/2021/06/04/pais-filhos-como-as-discussoes-dos-pais-tambem-afetam-os-filhos/

Queremos estar cada vez mais perto de si!

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100 anos de vida(s): Fernando Pinto

Sem Título

Entrei nas Oficinas de S. José a 1963 com 7 anos.

Vim para a Instituição porque sendo de Resende, a mãe faleceu e o pai abandonou o lar com 5 filhos. Os 3 rapazes vieram para Guimarães. As irmãs foram uma com o pai e outra ficou com o pai.

Uma senhora rica de Resende tentou integrá-los na Casa Pia, mas como não havia vagas, vieram para Guimarães.

Estive dos 8 aos 18 e a partir dos 18 fui operário tipógrafo.

Saí para outra gráfica.

Antigamente havia várias oficinas, começando pela alfaiataria mas depois fui para a tipografia. Aliás os meus irmãos que eram todos tipógrafos, aconselharam-me a seguir a tipografia porque era a que dava mais saída profissional.

Sobre o funcionamento da casa, acho que havia muito rigor.

Apanhei as freiras e padres, com muito rigor, embora reconheça que tudo o que é a sua formação foi obtida nesta casa.

Face à rigidez exagerada porque passamos, reconheço que alguma faz falta porque se passou do 8 para o 80.

Todas as atividades internas eram feitas pelos alunos desde a limpeza normal até às limpezas mais gerais.

Sobre peripécias passadas lembro que não passei frio nem fome, mas havia coisas disparatadas. Tínhamos na refeição a sopa, o prato e o pão. Então peguei no pão e guardei-o para a tarde. A certa altura fui apanhado e levei uma tareia.

Nunca senti que naquela altura se fizesse a apologia do Estado Novo ou, o fizeram não deu por ela dado que não entendia nada de política.

Lembro-me muito bem da insistência em incutir nos alunos os ensinamentos católicos, com missa todos os dias, terço e orações a muitas horas, de tal maneira que digo por brincadeira às minhas filhas que já tenho missas para toda a vida.

Não sei se o Centro Juvenil perdeu a sua vertente religiosa, não quero falar porque não conheço, mas suponho que não haverá a mesma insistência do antigamente. Embora tenha ligação ao Centro Juvenil, no entanto não procuro saber essas coisas.

No entanto se comparar as instalações do Centro Juvenil com as do meu tempo, o Centro Juvenil é um autêntico hotel. E, sem qualquer dúvida hoje as crianças tem muito melhores condições, sem qualquer tipo de comparação.

Sobre diferenças entre o meu tempo e o tempo atual, falo principalmente pelo que ouço. No meu tempo vinham os meninos que estavam abandonados, sem pais. Hoje pelo que ouço já entram para o Centro Juvenil jovens que já entram com certa idade e já com alguns vícios, considerando essa atitude um disparate, que pode trazer dificuldades à Instituição.

Penso que as pessoas de Guimarães têm a noção do que são as Oficinas de S. José.

No meu tempo havia 120 alunos e de Guimarães eram apenas 20 ou 30. Os outros eram de fora porque as pessoas de Guimarães não queriam cá os filhos, porque diziam que aqui se vivia mal, o que era uma pura mentira.

De facto vivia-se com dificuldades e rigidez, mas havia valores que nos serviram muito para a vida. A maioria das pessoas que saiu daqui saiu com a sua profissão.

Sobre o que levei para o meu futuro, são os valores que ainda hoje sigo e procurei transmitir às minhas filhas, não com pancada, mas com a experiência e o seu exemplo. Felizmente são duas filhas maravilhosas, que seguiram os valores que tentei incutir-lhes.

Sobre a importância da Instituição para a sociedade penso que que fazem falta à sociedade mas de forma a que as crianças venham não apenas para serem abrigadas, mas principalmente para lhes serem dados valores que nas suas casas não tem.

Ao ver algumas fotografias recordo vários colegas mas que de momento desconheço o paradeiro.

Participei nas camadas jovens do Vitória e estive lá até aos seniores. É importante referir que nessa altura já havia facilidades para participar nas atividades organizadas pelo Vitória.

 Não era habitual irmos a casa ao fim de semana. Saiamos todos juntos, com roupa toda igual e íamos ao futebol.

Numa destas fotos reconheço o Dr. Marta que revolucionou um pedaço a instituição.

É com ele que acabam as fardas. Todos tínhamos um fato diferente. Apenas havia fardas para a Banda de Música, mas mesmo essa era um simples fato azul.

Pediu chuteiras e bolas ao Benfica porque até aí jogávamos descalços. Reconheço ainda o meu irmão mais velho, o José Luis Caquinhos…

Gosto muito de jogar futebol de tal forma que ainda hoje estou ligado ao futebol. Lembro-me de em miúdo assistir aos jogos da seleção, pela televisão.

Lembro que os excelentes profissionais de tipografia que existiam na cidade de Guimarães foram alunos nas Oficinas de S. José.

Recordo com saudade do Pe. Carlos Mesquita pela sua bondade e forma de educar.

Um dia fomos às laranjas e o Pe. Mesquita viu-nos e chamou-nos para nos admoestar. Chamou-nos a atenção para o que estávamos a fazer e foi a uma caixa onde tinha rebuçados, deu-nos e recomendou-nos que não o voltássemos a fazer. Era um método totalmente diferente de educar do anterior sacerdote que por tudo e por nada batia.

Recordo com muita saudade e quero destacar o papel de uma pessoa, que, sendo funcionária da casa, aproveito para agradecer a todas as pessoas que trabalharam com eles, mas quero destacar a D. Birinha, que sendo funcionária da casa, era uma mãe para os alunos. Foi uma pessoa que mexeu com todos os alunos desse tempo, pelo seu carinho, pela sua bondade. Era a mãe que os alunos não tinham.

Frequentávamos a casa dela, conheci a minha mulher na casa dela e estou-lhe eternamente grato por tudo o que fez por nós.

100 anos de vida(s): Manuel Miranda

Manuel Miranda tem 80 anos e foi das primeiras crianças a ser acolhidas pelas Oficinas de São José. Hoje, conta-nos a sua experiência.

“Entrei para as Oficinas já grandito. Era malandro e era difícil entrar nas Oficinas de S. José. Como era filho de pai incógnito a minha mãe procurou encaixar-me.

Quando já tinha 12 anos queria ir para a Escola. Os meus avós diziam que só ia para a Escola quem não quisesse trabalhar.

Entrei para as Oficinas em Junho de 1946 e saí em 18 de Agosto de 1952.

Nunca cheguei a trabalhar nas Oficinas.

A casa era gerida pelo Pe. Domingos mais tarde D. Domingos, um cristão fora de série um pregador que arrastava multidões, levava tudo atrás dele com a sua voz.

Quando ele foi para bispo em 1948, entraram novos padres nomeadamente o Pe. António Ribeiro, de Silvares.

A partir daí começou a haver destruição do património da casa. Quando o Pe. Domingos precisava de comprar alguma coisa dirigia-se ao escritório onde estava um colega nosso: “Preciso de comprar, manda o moço de recados e dá-lhe dinheiro.” Ele nunca sabia quanto havia nos bancos, quem sabia éramos nós.. Nessa altura havia reservas no banco.

O novo Padre veio ganhar um ordenado não havendo o mesmo amor do Padre Domingos.

Tudo o que ganhava tudo metia ali. Quando foi embora disse que nos levava no seu coração e tudo o que tinha ficava nas Oficinas. Despediu-se um por um e éramos já 110.

Quando ele foi embora eu já tinha 15 ou 16 anos, deixando-nos responsáveis pelos mais novos. Disse-nos vou para a Guarda e fica cá tudo, mas deixai-me levar pelo menos a roupa interior que essa ninguém ma vai dar. Como era grande pregador davam dinheiro, géneros, peças de pano para nos fazer roupa. E quase tudo anónimo.

Antes das orações da noite chamava-nos para agradecer tudo o que no dia nos tinha sido entregue. Gostava muito dele.

A partir daí o novo padre puxou para si a parte financeira não tendo os alunos qualquer conhecimento. Começou a haver grandes dificuldades financeiras.

Um dia fomos comprar uma carpete muito bonita para a capela em veludo, muito bonita. Quando chegamos ele ralhou-nos e mandou-nos buscar uma carpete mais barata.

Disse-lhe que ele estava a agir mal e ele deu-me ordem de saída.

Nunca fiquei ligado à casa pelo menos enquanto esse Padre cá esteve.

Depois houve novas direções que geriram melhor.

As rotinas estavam relacionadas com a religião católica.

Os alunos estavam divididos em pequenos, médios e grandes. Os pequenos levantavam-se às 7.30 e os mais velhos às 6.30. Iam para a missa às 8 e às 8.30 tomavam o pequeno almoço. Os que tinham escola iam para a escola,  os outros iam para as artes.

As Oficinas tinham várias artes. Comecei como alfaiate, mas ao fim de um mês ou dois vi que não era para mim. Depois fui para carpinteiro. Também não segui porque vi os tipógrafos que levavam uma melhor vida. Aprendi composição, impressão e encadernação. Tive ainda o privilégio de conhecer o A.L. de Carvalho que era um escritor de Guimarães que até tem uma praça com o seu nome. Ele a ditar e eu a compôr os tipos, para um livro “Guimarães de tempos idos…” que quando fazia o pagamento oferecia 100 ou 200 livros que vendiamos para arranjar verbas para a casa.

Quando saí não segui a arte de tipógrafo. O destino está traçado. Como não segui a tipografia tive mais dificuldades pois se fosse tipógrafo era mais fácil dado que os tipógrafos eram muito conceituados e pretendidos.

Houve alguém que disse, o padrasto “não vais fazer qualquer trabalho. Sabes ler e escrever bem e não vais andar a sujar as mãos nas tintas”.

Um tio tinha uma loja, um bar nocturno que o levou para lá onde comia e dormia e não dava despesa em casa. No entanto senti que aquilo não era para mim pois o ambiente não era o melhor.

A seguir fui para a Pensão da Montanha da Penha a vender copos de vinho. Vinha uma senhora do Porto que me ofereceu emprego no Porto, numa mercearia boa, com 22 empregados.

Como ia fazer as entregas dos produtos um cliente que tinha uma drogaria ofereceu-me emprego, dando-me o dobro do ordenado.

Sobre a forma como a Instituição era vista no exterior, afirma que dentro da casa havia uma boa formação, sem qualquer política. Respeitar para ser respeitado.

Como acabei por me estabelecer na actividade comercial visitei muitos países e trouxe alguns ensinamentos que colhi nessas andanças.

As casas como as Oficinas de S. José podem perfeitamente viver em democracia. Não é um mosquete que faz mal a um miúdo se for para o formar.

Não conheço muito bem o funcionamento da casa. Pelo que me dizem quem quer estudar, estuda, quer quer trabalhar trabalha mas também quem não quiser fazer nada, nada faz. Ora isso não está certo. Esses meninos não tem futuro.

As crianças precisam de ser preparadas logo muito cedo.

Quando uma criança chegava, o Padre Domingos recebia-os e todos vivíamos como irmãos.

Sobre a parte religiosa acho que se perdeu alguma coisa, defendo que se deve explicar muito bem a religião católica porque se isso for feito, eles seguem-na.

As instituições como o Centro Juvenil são muito importantes porque as pessoas hoje trabalham muito e muitas vezes não há tempo para cuidar dos filhos.

Estas casas poderiam ser mais intervenientes na educação das crianças.

Das Oficinas de S. José recebi tudo o que fez de mim o homem que sou.

Se tenho valores, uma vida estabilizada a esta casa o devo. Tudo o que sou às Oficinas de S.José o devo.

O património que hoje tenho, 4 filhas, 6 netos tem a ver com a formação que recebi nas Oficinas de S. José, e, apelo aos governos para que não retirem às Oficinas de S. José a capacidade de educar e formar a juventude.”